BEM PREGA FREI TOMÁS
Na
derradeira crónica que, já este ano, publiquei no Raio de Luz,
antes de ter sido defenestrado deste mensário pela sua actual directora, Teresa
Mayer, com aquela delicadeza que sempre se pode esperar da ex-agente de um paparazzi de
nome Taliban, escrevi sobre a magnificência de Morrissey. Entretanto, no último
primeiro de Agosto, tive a sorte de ir vê-lo cantar ao Porto com a Risoleta e a
Leonor, num Pavilhão Rosa Mota à pinha. Concerto memorável e magistral, a que
não faltou, entre muitos outros hinos, Everyday Is Like Sunday, em
cuja letra Moz apela à vinda da bomba nuclear. Nada que o nosso Rafael Monteiro
não tivesse já feito, com respeito a Sesimbra, diante de Almada Negreiros, como
nos testemunha António Telmo. E de que a bomba faz realmente falta não resta
qualquer dúvida. Como um golpe de misericórdia. Pelo menos no tocante à
imprensa local.
Do Raio de Luz, depois da purga que a sua novel, esquecida e
malcriada directora, logo que empossada, cometeu sem dizer “água vai” aos
colunistas, uns mais incómodos do que outros, desconhece-se que novos rumos
pretende imprimir ao jornal, tirante a proliferação de entrevistas a criaturas
tão entusiasmantes como a omnivisível adjunta Dr.ª Maria Gomes ou a
hiper-mega-jurássica Odete Graça, ou notícias quase tão exóticas como a madeixa
de Mayer, sempre com chamada na capa da publicação, como essa de uma equipa da
Universidade do Minho se haver sagrado vice-campeã mundial de robótica. Ou
essoutra da açoriana Ana Filipe, eleita a melhor atleta do campeonato da Europa
de Virtus, atleta cuja ligação a Sesimbra poderá estar relacionada com a
frequência de alguma colónia de férias. Ou essoutra ainda da distinção que o
rei Carlos III concedeu recentemente à cientista portuense Luísa Freitas dos
Santos, que deve ser pexita de gema desde pequenina e ainda viu o Fragata a
jogar no Desportivo. Há também, como suprema manchete, em excepcional rota de
aproximação à Piscosa, uma entrevista ao empresário da restauração
que se tornou uma referência gastronómica sesimbrense a empandeirar pizzas ao
pessoal. É sabido que os paparazzi, por uma qualquer evidente
afinidade linguística, gostam de pizzas. Há por ali muitos Pês e
Zês a dobrar, qual martelo pneumático ou a marca do Zorro que se abateram, inclementes,
sobre o Raio de Luz e os seus leitores. Palpita-me
que a senhora Mayer decide o alinhamento do jornal após uma jogatana de batalha
naval. Se o tiro for na água, a notícia a dar terá que ter, pelo menos, uns
trezentos quilómetros de distância. E é o que se tem visto. Não deixa de ser
tranquilizador, agora que se aproximam as regatas de aiolas…
Já o editorial desapareceu do Raio de Luz, pelo que ficamos sem
saber o que pensa agora sobre Sesimbra, o país e o mundo a outrora agente de
Taliban, o que nem será necessariamente mau, supondo que alguma ideia lhe cruza
o cérebro.
Quanto a'O Sesimbrense, recorde-se, havia começado o seu centésimo
ano de publicação envolto em acusações de promover a censura interna, a
propósito de uma peça jornalística que envolvia o Dr. Jesus e um empreendimento
urbanístico de colossais dimensões. Tais as imputações, nunca desmentidas pelo
já então seu director, Paulo Tomás, que ao jornal foram dirigidas na praça
pública, num vídeo viral, pelo seu ex-colaborador João Pinhal, autor da
entrevista que gerara toda a celeuma.
Pois bem, O Sesimbrense celebrou há um mês a efeméride,
linda de morrer, dos três algarismos com excelente gastronomia e uma comovente
predicação de Frei Tomás no número centenário, enaltecendo, entre outros
atributos, a liberdade de imprensa. O mesmo Frei Tomás que, pouco menos de um
ano antes, nada dissera em público, que se tenha sabido, perante as acusações
de censura.
Segundo me contaram, O Sesimbrense solicitou à Câmara
Municipal de Sesimbra que lhe fizesse o obséquio de organizar umas comemorações
propriamente culturais e coisa e tal. Mestre Andreia, sempre inexcedível,
preparou duas sessões palpitantes de leitura pública de velhos jornais cheios
de anquilosada ortografia e de peixinhos de prata.
João Pinhal está, entretanto, a trabalhar no Público. O futuro de O Sesimbrense está garantido.
Pedro Martins


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