MATA O MOURO, DÁ-LHE UM ESTOURO!

 

Alfredo Keil, "Praia de Sesimbra"

Òleo s/ madeira, Outubro de 1877, 

Museu Keil Amaral, Viseu

        

Tal foi a inscrição que um dia, vai para mais de vinte anos, pude ver, pintada num muro do Passeio das Virtudes, sobranceiro ao Douro, na cidade do Porto. Mas, com a devida projecção actualista, esta frase poderia servir de legenda – a legenda é aquilo que é para ser lido – à pintura a óleo “Santiago aos mouros”, cujo regresso à Fortaleza de Santiago, de onde esteve ausente durante mais de quarenta anos, foi recentemente anunciado, com insofrida comoção, pelo Dr. Jesus, mercê de um acordo celebrado entre a edilidade sesimbrense e a GNR. A tela chegará por empréstimo, a título gratuito, e será exibida após restauro.

Parece justo afirmar que a Câmara Municipal de Sesimbra está de parabéns por ter conseguido recuperar para a fruição do público, com os sesimbrenses à cabeça, esta obra de arte. O problema, para o qual já João Augusto Aldeia, há algumas semanas, chamou a atenção, reside, na verdade, nas considerações que o edil sesimbrense teceu sobre este regresso e o seu real significado. Judiciosamente, questiona o historiador «a veneração sesimbrense pela sanha guerreira do apóstolo», em face da afirmação presidencial de que o quadro tem um «profundo significado histórico, cultural e afectivo» para a população de Sesimbra. A impressão com que se fica é que o Dr. Jesus, que para além de alcaide detém o pelouro da Cultura, se deitou a falar do que não sabe, reincidindo, em sua costumada prosápia, na megalomania provinciana que amiúde lhe tinge o discurso.

Vejamos. Que o quadro tenha significação afectiva para os sesimbrenses, ainda vá que não vá. Tê-la-á, pelo menos, para aqueles, que não serão hoje muitos, que puderam ressentir como uma perda ilegítima a sua ida para Lisboa na década de 80. Os restantes, ou dele não têm memória ou simplesmente desconhecem-no. Tivesse, porém, o Dr. Jesus ficado por aqui que não teria ficado mal.

Mas não. Quis armar ao pingarelho e julgou haver protagonizado, com este reaver da pintura, necessariamente provisório, uma gesta homérica. Quanto ao profundo significado histórico do quadro ficamos conversados quando o comparamos com a imagem do Senhor Jesus das Chagas. “Santiago aos mouros” não tem atrás de si a menor carga lendária. E nem sequer sabemos em que circunstâncias de tempo e de modo chegou ele à Fortaleza. Também não consta que haja alguma vez sido adereço de culto ou motivo de veneração pelos indígenas, que só em décadas da anterior centúria se habituaram a vê-lo pendurado numa parede da Fortaleza.

Falar da obra de arte em si mesma ajuda a compreender o que tenho estado a dizer. Como pintura, este “Santiago aos mouros” é uma obra interessante, mas muito mediana, senão medíocre, como mediano, senão medíocre, foi o século XVII na nossa pintura, tirante Josefa, seu pai Baltazar e um ou outro retratista de feitos assaz isolados. Já não havia Jorge Afonso e Grão Vasco. E ainda não havia Sequeira nem Vieira. Para não sairmos da escala local, o pintor de “Santiago aos mouros” está a anos-luz do Gregório Lopes de "Nossa Senhora da Misericórdia", ou das duas tábuas do Mestre da Lourinhã que em boa hora vieram do Cabo para a Capela do Espírito Santo. Os anos de toda a luz que faltou para lhe iluminar o debuxo e a paleta.   

Tendo noção das dimensões, evita-se a queda no ridículo. O Dr. Jesus, em fiando as coisas mais fino, isto é, respeitando a arte ou a literatura, manifestamente, não a tem. Vê méritos poéticos em colectivos grotescos que espicham os nossos muros e Leonardos da Vinci em pintores de terceira ordem. E tudo isto sem que a sua adjunta, sem óleo para tamanhas candeias, possa vir em seu auxílio.

Não se sabe, ao certo, que lugar irá “Santiago aos mouros” ocupar na Fortaleza. Como o Dr. Jesus prometeu conservá-lo devidamente, e é o mínimo que se lhe pede, será de admitir que vá direitinho para uma das salas do Museu Marítimo, aquelas que, à partida, terão maior aptidão de um tal ponto de vista. Se assim for, será a única pintura – enfim, uma pintura! – a integrar o discurso expositivo, mas sem qualquer relação evidente com a temática que rege as colecções. Virá, assim, pôr a nu o vazio da pinacoteca daquele Museu. Quase cinquenta anos de gestão cultural comunista conduziram a esta especial indigência, em evidente contraste, por exemplo, com a galeria de pintura do esplendoroso Museu Marítimo de Ílhavo. Quantas oportunidades de depósito e de aquisição no mercado de arte se perderam entretanto? Faltam quadros, falta gosto, falta saber. Faltam engenho e arte.

“Santiago aos mouros”, afirma o Dr. Jesus, «terá um papel preponderante na vida coletiva do município». Leram bem: um papel preponderante na vida coletiva do município. Alguém me consegue explicar por alma de quem irá isto suceder?

Pedro Martins

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