UM ANJO NO CAMPO

Estivemos várias semanas sem o ver e o portão sempre fechado. Inquietámo-nos por ele, por nós. Faz-nos falta. Andámos a perscrutar o portão, as janelas, o estado do jardim. Tudo fechado, desolação. Imaginámos o pior, entristecemos com o que imaginávamos. Depois soubemos, por uma vizinha, que a esposa estivera doente, fora operada. Ficámos preocupados pela senhora que não conhecíamos, aliviados por ele, que mal conhecemos. Um dia, o portão reapareceu aberto, e ele novamente no jardim, arrancando ervas, cortando o que havia para cortar, limpando o chão. A rua reganhou vida com a sua presença por detrás do gradeamento. Vemo-lo da nossa varanda e sabê-lo ali preserva a ordem do universo. Quando saímos com os cães, saúda-nos sempre como se fossemos velhos amigos. Ficamos ali a conversar, sobretudo a ouvi-lo. Conta das preocupações e melhoras da senhora, das suas dores e ressurreições, diz-nos que lida até ir dormir, se não no jardim, arranjos na casa, não vale a pena ir para a cama sem sono. No rosto um sorriso, mesmo quando fala das dores. Acompanha-o sempre um pequeno transístor, a sua companhia em Almoinha. Vive nos arredores de Lisboa, mas não dispensa o seu paraíso ao fim-de-semana. Como nós. Temos isso em comum. Quando trabalha no jardim tem de se sentar de vez em quando, por isso acompanha-o um banquinho, para além do transistor. Passo a passo, neste trabalho de formiguinha, o jardim vai ficando transformado, com um ar arrumado, limpo, cuidado. Com a ausência forçada, perdeu os frutos das árvores, a vinha, mas isso não o faz desistir. Pergunta-nos pelos jogos. A televisão antiga avariou e a outra é demasiado sofisticada, não sabe ligá-la, quando não estão os mais novos, filha, neto, que por vezes também vêm. Usa canadianas, mas dispensa-as quando está a tratar do jardim. Uma antiga fractura num pé e outra na perna do lado oposto, causam-lhe dores quase permanentes e um andar cambaleante, difícil. Ficamos da varanda a vê-lo deslocar-se com dificuldade, a ampará-lo com os olhos. Toma uma aspirina por dia para um pequeno alívio. E continua, sorrindo. Chegámos a vê-lo empurrando um carrinho de mão a caminho dos contentores do lixo. Ultimamente, a sua moldura tem sido mais a casa, o gradeamento, o jardim. No outro dia observávamos, da varanda, a sua lida. Na estrada, um senhor passeando um cão ia-se aproximando. Soubemos antecipadamente que iria parar, cumprimentar e ficar a conversar. Foi exactamente o que aconteceu. Ninguém resiste à presença de um anjo num jardim. Este senhor, chamemos-lhe A., não imagina a importância que a sua presença tem ali. Ele é uma espécie de guardião da tradição da vida rural no campo de Sesimbra. E da convivialidade. Da gentileza, da persistência e do espírito de sacrifício iluminado por um sorriso. Um exemplo de quem não se deixa derrubar pelas contingências. Quando tem de parar, pára, quando tudo parece destruído, prossegue. Como pode. Mas não desiste, não se queixa e… sorri. Quanto ao resto, tudo igual. As raízes das árvores levantando o chão junto dos prédios, apesar dos persistentes telefonemas para quem tem o dever de cuidar, a placa com o nome da Rua Alfredo Keil partida, o lixo amontoando-se regularmente junto aos contentores, tentando, reconhecemos que inutilmente competir com Lisboa, a campeã das cidades inundadas pelo lixo, a fazer jus ao seu nome, Lixoboa, o preço das casas escandalosamente inflacionado, também aqui sem grande originalidade. Assim, resta o campo, a natureza e o senhor A. De que nos queixamos? Razão tem o senhor A. com o seu sorriso. Risoleta C. Pinto Pedro

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