DA ROTA DOS QUEIJOS AO PORTAL MANUELINO
Uma das vantagens de fazer de dia a viagem entre Lisboa e Sesimbra, o que, infelizmente, raramente acontece, é que o caminho se torna, subitamente, luminoso, mesmo que não haja sol. Associado ao facto, surge o desejo de fazer desvios. Uma placa de trânsito indicando Palhais atrai-me a uma nova estrada. Palhais tem, para mim, uma vaga localização e a evocação de uma marca de um tipo de queijo. Como, limitando-me apenas à proximidade de Sesimbra, Azeitão e Azóia são topónimos fortemente perfumados a fermentação, a prometer ainda melhores sabores. Mas uma igreja com um portal manuelino estava muito longe da minha realidade sobre Palhais. Desde a semana passada passou a ser real. Esta vila do concelho do Barreiro teve a sua igreja erigida entre o século XV e o século XVI com o apoio da Ordem Militar de Santiago. Não vi queijos, mas algo de familiar me tocou no belo largo, pela estrutura, pelo tipo de casas, pelo diferente correr do tempo, senti ali a presença da migração do Alentejo. O adro ecoou como todos os adros, uma sala de estar transversal a tempos, classes e idades, uma espécie de entrada familiar num mundo de memórias comuns. A igreja tem o nome de Nossa Senhora da Graça e o Largo Paulo da Gama evoca, sem equívocos, os Descobrimentos. Segundo informação do Município, ali terá vivido «uma elite de altos funcionários da Coroa relacionados com a Real Fábrica do Biscoito em Vale de Zebro, que decisivamente deixou marcas da sua existência».
Retirámo-nos quase às arrecuas, como em crianças, quando queríamos gravar na retina o que não desejávamos esquecer. No caminho restante para Sesimbra outros nomes me chamaram, mas seria já overdose de radiância e felicidade. Assim, mais uma vez como em criança, regressei a saborear devagarinho o doce, antecipando próximos desvios para inesperados portais.
Risoleta C. Pinto Pedro









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