CENTENÁRIO DO JORNAL 'O SESIMBRENSE'

Recebi, finalmente, por correio, a edição nº 1332 (2ª série)* do jornal O SESIMBRENSE, comemorativa do seu centenário. Centenário que – há que reconhecer – foi uma oportunidade perdida para projeção do jornal e da Liga dos Amigos de Sesimbra, pois tudo decorreu como qualquer outro aniversário do mesmo periódico, sem cumprimento de iniciativas prometidas pela própria Direção, como a publicação de um livro ou a constituição de uma Comissão de Honra.

Das 24 páginas desta edição, 7 são dedicadas a fazer a história de Sesimbra nestes 100 anos, com algumas notas sobre como o jornal se posicionou, texto onde domina a ideia, também expressa no Editorial, de que a publicação fez da “verdade o princípio orientador da sua existência”, informando “com rigor, independência responsabilidade e respeito pelos factos”, uma sopinha de mel que é glosada em diferentes depoimentos ali incluídos, como p. ex.: “dando voz às pessoas, às instituições, às coletividades, às empresas" (Francisco Jesus, presidente da Câmara), “compromisso, independência, rigor e dedicação” (Laura Correia, presidente da JF Santiago), “rigor, independência, dedicação e um profundo compromisso com o território e com as suas gentes” (Daniel Gaio, presidente da JF Quinta do Conde), “pluralidade de opiniões e ideias” (padre Cláudio Rodrigues, pároco de Santiago e do Castelo), etc, etc.

Eu, como um antigo colaborador e Diretor, podia aproveitar, fazer uma vénia e impar de orgulho, mas não posso ignorar – e já o escrevi nas suas páginas – que o jornal foi inicialmente o reduto dos políticos republicanos destituídos pelo golpe militar de 1926, e que em 1952 foi tomado pelos apoiantes do Estado Novo, passando, por exemplo, a apelar ao voto nos deputados da União Nacional… ou ainda que, em 1978, esteve ao serviço da Direita política, com um duplo cabeçalho de O SESIMBRENSE e VOZ NOVA… A propósito, lembro que a Diretora de então, Manuela Costa, e eu, temos em comum o seguinte: ambos fomos Diretores deste jornal, e ambos estivemos “alojados” na prisão de Caxias por motivos políticos, um por ter participado na agitação estudantil contra o Estado Novo, e a Manuela Costa, já depois da Revolução de 1974, devido a críticas ao regime democrático (experiência que relatou no livro “Tortura depois de Abril”).

Porém, tudo isso foi oportunamente ignorado, como costuma acontecer nos obituários. No mesmo tom melado, o texto histórico repete as conhecidas banalidades: a importância do mar e da pesca (ignorando a economia rural, quase nunca referida), saudando a consolidação do turismo e o crescimento urbano (mas ignorando os correspondentes impactos negativos, dos quais O SESIMBRENSE tem dado numerosos testemunhos).

No entanto, para o ano de 1926, o texto descobre uma “novidade”: a indústria conserveira “começava a afirmar-se como um dos motores económicos do concelho”, desenvolvendo “uma cultura operária própria” – frase que seria aplicável ao período de viragem do século 19 para o 20, com a instalação das duas grandes fábricas de capital francês (Nacional e Ouisille), mas que depois decaiu, apenas com uma ligeira recuperação durante a 2ª Guerra Mundial. O exagero da importância da indústria conserveira na economia de Sesimbra continua pelas décadas seguintes, até ao ponto de incluir os “trabalhadores da indústria conserveira”, em 1974-1976, entre os que "passaram a intervir de forma mais ativa nas decisões” – isto, apesar da última fábrica de conservas ter encerrado em 1961. Também é surpreendente a afirmação de que 1926-1945 foi um “período de consolidação da identidade marítima” – pergunto-me se seria pelo surgimento da Casa dos Pescadores e da sua política corporativa? Ou por esta ter imposto aos pescadores as “camisas TA-MAR” nas cerimónias oficiais e religiosas, e tentado (sem êxito) criar a tradição das marchas de arquinho e balão?

Felicito quem redigiu o texto por reconhecer que, no período 1945-1974 (de administração do Estado Novo), “Sesimbra modernizou a sua economia e lançou muitas das bases do desenvolvimento que conheceria nas décadas seguintes”; mas surpreendeu-me a afirmação de que, neste período, “as procissões marítimas, profundamente ligadas à identidade piscatória de Sesimbra, reforçavam a devoção e a ligação espiritual ao mar”, porque O SESIMBRENSE nunca fez qualquer referência a este tipo de procissão, a não ser em 1968, quando publicou que “a Casa dos Pescadores procura fazer ressurgir” o culto a Nossa Senhora da Boa Viagem, sendo uma iniciativa que acabou por ser interrompida pouco depois, e até ao início do século 21, quando o padre Sílvio a retomou.

Também não compreendo a afirmação de que no período 1974-1976, O SESIMBRENSE “reforçou o seu papel como cronista privilegiado”, quando foi precisamente a época mais perturbada da vida do jornal, com suspensão da publicação durante vários meses.

Enfim, uma visão reconfortante, mas distante da dura realidade dos factos.

* Nota: entre 1926 e 1951, o período de Direcção de Abel Gomes Pólvora, foram publicadas 1299 edições (1ª série)

JOÃO AUGUSTO ALDEIA

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